
Há lugares que deixam de ser apenas construções e passam a fazer parte da alma de uma cidade. O antigo Clube Helênico-Libanês, em Guajará-Mirim, é um desses lugares. Hoje, diante das imagens registradas pelo museólogo Ocampo Fernandes, nascido na própria cidade, o que se vê é muito mais do que um prédio deteriorado. Vê-se uma parte da história de Guajará-Mirim resistindo, silenciosamente, ao abandono e à passagem do tempo.
Fundado no final da década de 1950 por famílias de origem grega e árabe, o Helênico-Libanês nasceu em um período em que Guajará-Mirim vivia intensa movimentação econômica e social. A presença de imigrantes e descendentes de diferentes nacionalidades ajudou a formar uma sociedade plural, marcada pelo comércio, pela navegação, pela Estrada de Ferro Madeira-Mamoré e pelas relações estabelecidas entre brasileiros, gregos, libaneses e outros grupos que fizeram da Pérola do Mamoré o seu lugar de vida.
O clube tornou-se um dos principais espaços de convivência social da cidade. Ali aconteceram bailes de Réveillon, festas de Carnaval, Baile do Havaí, festas à fantasia, casamentos, aniversários, festas de debutantes, desfiles e tantos outros acontecimentos que ficaram guardados na memória de várias gerações. O salão não era apenas um espaço físico. Era um ponto de encontro, um cenário de celebrações e uma espécie de retrato da vida social de Guajará-Mirim.
As imagens atuais, entretanto, provocam um sentimento inevitável. O salão que um dia recebeu música, vestidos de festa, famílias, jovens, casais e grandes celebrações aparece agora silencioso, com o telhado comprometido, paredes marcadas, portas e janelas deterioradas, mato tomando conta do entorno e o interior coberto pelos vestígios da destruição.
No próprio edifício ainda se pode ler o nome “Salão Youssif Melhem Bouchabki”, uma marca material que ajuda a preservar a ligação daquele espaço com uma das famílias que participaram da construção da história econômica e social de Guajará-Mirim. Registros históricos apontam a participação de famílias gregas e árabes na criação do Clube Helênico-Libanês e destacam a importância do espaço para a vida social da cidade.
O fechamento do clube ocorreu no final dos anos 1980, inicialmente sob a expectativa de uma reforma que, segundo registros publicados sobre a história local, jamais chegou a ser concretizada. Desde então, o antigo clube passou a representar também uma das faces do processo de deterioração do patrimônio histórico-cultural de Guajará-Mirim.
E talvez seja justamente aí que esteja a maior importância do registro feito por Ocampo Fernandes. Ao percorrer o prédio e mostrar suas paredes, seus salões, seu antigo palco de acontecimentos e os sinais de abandono, ele não está simplesmente filmando uma ruína. Está produzindo um documento de memória. Um testemunho visual de uma construção que ainda carrega as marcas de uma época.
Pesquisadores que estudaram o patrimônio cultural de Guajará-Mirim identificam o Clube Helênico-Libanês entre as edificações que permanecem como testemunhos da presença e da contribuição de diferentes povos para a formação da cidade. Esses estudos também chamam atenção para o processo de deterioração de diversos imóveis históricos e para a necessidade de preservar esse patrimônio como parte da identidade cultural do município.
É impossível olhar para aquelas imagens sem imaginar o contraste entre o passado e o presente. Onde hoje existem paredes descascadas, existiram encontros. Onde agora há silêncio, existiram música e conversas. Onde se acumulam folhas e restos do antigo telhado, caminharam pessoas que fizeram parte da vida cotidiana de Guajará-Mirim.
O abandono de um patrimônio não significa apenas a perda de uma edificação. Quando uma construção histórica desaparece, desaparecem também referências, lembranças e possibilidades de contar às novas gerações quem fomos e como chegamos até aqui.
O Clube Helênico-Libanês, portanto, não pertence somente às famílias que participaram de sua criação, nem apenas às pessoas que frequentaram seus bailes. Ele pertence à memória coletiva da cidade de Guajará-Mirim. Sua história está ligada à própria formação social da cidade e ao encontro de diferentes culturas que ajudaram a construir a Pérola do Mamoré.
O trabalho de Ocampo Fernandes ganha ainda maior significado por ele próprio ser filho da terra. Ao voltar os olhos para esse espaço, ele registra aquilo que muitas vezes passa despercebido pela rotina: a história também está nas paredes antigas, nos nomes escritos sobre uma porta, nos salões vazios e até nas ruínas.
Talvez o maior perigo para um patrimônio histórico não seja somente o tempo. É o esquecimento. E enquanto houver alguém disposto a registrar, pesquisar, fotografar, filmar e contar essa história, o Clube Helênico-Libanês continuará existindo não apenas como uma construção em ruínas, mas como uma lembrança viva de uma Guajará-Mirim que teve seus grandes momentos, seus personagens, suas festas e seus sonhos.
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