
A Bolívia anunciou uma nova etapa de operações das Forças Armadas em dois pontos de sua fronteira com o Brasil, numa reação ao avanço de organizações criminosas que, segundo autoridades bolivianas, disputam corredores usados para transportar drogas entre os países. O anúncio envolve diretamente as regiões brasileiras de Mato Grosso e Rondônia.
O ministro de Governo, Marco Antonio Oviedo, revelou em 4 de novembro que conversou com o Ministério da Defesa e com o comando militar para preparar ações em San Matías e Guayaramerín. Ao citar a Polícia Federal brasileira entre os parceiros da estratégia, o governo colocou a cooperação com o Brasil no centro de mais uma decisão de segurança.
A declaração veio depois de meses de ataques, reforços policiais e operações de fronteira. A novidade agora é a articulação anunciada para ampliar a participação militar em locais onde já havia efetivos de segurança e patrulhamentos anteriores.
Em entrevista à rádio Panamericana, reproduzida pelo portal eju.tv, Oviedo disse ter falado na noite anterior com as Forças Armadas e com o ministro da Defesa sobre operações de acompanhamento na fronteira brasileira. O ministro citou nominalmente San Matías e Guayaramerín, além de outros trechos do limite internacional.
A justificativa apresentada foi impedir que grupos criminosos espalhem suas atividades enquanto o governo boliviano realiza ofensivas contra suas estruturas. Oviedo relacionou a resposta militar a uma ameaça transnacional e destacou a cooperação com a Polícia Federal do Brasil, a agência norte-americana DEA e autoridades de outros países.
O anúncio foi público, mas não trouxe quantidade de militares, unidades escolhidas ou data confirmada para o começo das novas ações. A decisão é, portanto, um planejamento anunciado pelo governo, e não prova de que uma nova força já tenha chegado às duas cidades.
A ligação com o Brasil não se limita ao mapa. Em comunicado anterior, o Ministério de Governo da Bolívia identificou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações presentes em corredores fronteiriços usados pelo crime organizado.
O governo boliviano apontou Cobija, Guayaramerín, San Matías e Puerto Suárez como áreas prioritárias de fiscalização. Em agosto, chegou a anunciar cooperação binacional com compartilhamento de informações e a previsão de representações policiais permanentes nos dois países. Agora, a participação das Forças Armadas volta a ganhar destaque.
Segundo Oviedo, grupos brasileiros mantêm estruturas em municípios bolivianos. A presença dessas organizações é uma avaliação das autoridades locais, não uma confirmação da autoria de cada ataque ocorrido na fronteira.
San Matías fica no departamento boliviano de Santa Cruz, junto à faixa de fronteira com Mato Grosso. Em agosto, a região enfrentou uma sequência de ataques que matou cinco pessoas, entre elas um policial boliviano, segundo a cobertura local e as informações divulgadas pelo governo.
O episódio provocou patrulhamentos e a chegada de equipes especializadas. Em uma ação realizada no mesmo mês, a Polícia Federal identificou brasileiros abordados por autoridades bolivianas em San Matías; um deles tinha mandados de prisão no Brasil e foi entregue às autoridades nacionais na região de Cáceres.
O segundo ponto mencionado por Oviedo é Guayaramerín, no departamento boliviano de Beni, diante de Guajará-Mirim, em Rondônia. O rio Mamoré separa as duas cidades e faz parte de uma extensa faixa de fronteira aquática entre Brasil e Bolívia.
Em setembro, a Polícia Federal informou ter recebido das autoridades bolivianas, no posto de Guajará-Mirim, um foragido da Justiça de Rondônia localizado em Beni. A ocorrência demonstrou que a cooperação não depende apenas de anúncios diplomáticos: já produz entregas de procurados e ações conjuntas.
Também em julho, a PF relatou a apreensão de cerca de 40 quilos de drogas em área ribeirinha de Guajará-Mirim, com apoio do Exército Brasileiro e de forças de segurança de Rondônia. São operações distintas da medida anunciada agora, mas realizadas na mesma região fronteiriça.
O plano binacional Fronteras Seguras, anunciado pela Bolívia em agosto, prevê intercâmbio de inteligência e ações coordenadas entre a Polícia Boliviana e a Polícia Federal brasileira. Em outubro, uma nova etapa de reforço policial também foi apresentada no país vizinho.
Ainda em outubro, investigadores brasileiros relataram a apreensão de aproximadamente 511 quilos de cocaína transportados por avião que havia partido do leste boliviano, resultado de uma ocorrência investigada desde fevereiro. O caso mostrou como pistas clandestinas e rotas aéreas entram no problema da fronteira.
É justamente essa sobreposição de rotas, facções e operações de segurança que torna a decisão boliviana relevante para o Brasil. Há uma parceria policial documentada e agora um anúncio de apoio militar boliviano, mas cada instituição responde às autoridades de seu próprio país.
O anúncio de novembro não substitui os reforços anteriores. Militares bolivianos já realizavam patrulhamentos preventivos em San Matías desde agosto, enquanto a ampliação policial tinha sido anunciada em etapas separadas. O fato novo é a coordenação apresentada por Oviedo para operações militares de acompanhamento nos pontos escolhidos.
Os próximos passos são a definição do efetivo, das unidades participantes e do calendário. Até que essas informações sejam divulgadas, a fronteira Brasil–Bolívia permanece no centro de uma decisão militar anunciada, cuja execução e resultados ainda deverão ser acompanhados.
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