
“O pensamento crítico é um processo interativo, que exige participação tanto do professor quanto dos estudantes” (Hooks, 2022, p. 34). Nessa perspectiva, compreende-se a escola como um espaço onde crianças e adolescências encontram-se com a diversidade fora do ambiente familiar, portanto, um passo relevante para reflexão crítica no ensino-aprendizagem desde os primeiros anos escolares, a partir de ludicidade com jogos, músicas, histórias sobre a população africana, afro-brasileira para além de datas comemorativas.
Foi refletindo sobre prática pedagógica que uma especialista em Educação das Relações Étnico-Raciais e História e Cultura Africana, Afro-brasileira e Indígena (Neabi/Ufac) – promoveu uma oficina antirracista sobre os tabuleiros africanos Shisima e Tsoro Yematatu, mostrando-os como uma estratégia eficaz para integrar ancestralidade, oralidade, memória, cultura dentro de uma aprendizagem significativa e transformadora, além de estimular habilidades cognitivas como concentração, estratégias, senso crítico e raciocínio lógico em estudantes no ensino de “Educação no Campo”da/na Amazônia acreana. É importante considerar que a oficina antirracista levou em consideração, dentre outros, a Lei 10.639/2003 que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas públicas e particulares de ensino fundamental e médio no Brasil.
Durante a realização da atividade, a oficina possibilitou uma abordagem positiva para a educação das relações étnico-raciais, contribuindo para a desconstrução de um imaginário racista sobre o continente africano. Nessa perspectiva, a oficina foi realizada durante duas tardes da primeira semana de abril do corrente ano, com metodologias ativas e antirracistas, na Escola Estadual Rural Nova Vida, localizada no Ramal Espinhara 2, sob jurisdição do município Bujari-AC, tendo o(a) estudante como protagonista no processo ensino-aprendizagem.
Shisima faz parte de um conhecimento ancestral transmitido através da oralidade pelo povo africano Tiriki – comunidade queniana. Dentre suas estratégias de jogo, o Shisima estimula inteligência estratégica, equilíbrio, raciocínio lógico, agilidade e pensamento analítico. Sobre o termo "Shisima", ele significa “água que se movimenta em espiral”, representando a fluidez dos movimentos necessários ao jogo, daí a justificativa do nome que, ao que tudo indica, surgiu a partir da observação de pulgas d’água, sobre a superfície de lagoas. Na língua Tiriki, “Shisima” também significa “extensão de água” (Cunha, 2016).
Sishima

Fonte: arquivo da professora
Em relação ao Tsoro Yematatu, ele está presente em comunidades do Zimbábue, na África. Trata-se de um jogo africano disputado por dois jogadores, assim como o Shisima. A estratégia utilizada para iniciar os jogos foi definida a partir de “par ou ímpar” ou “pedra, papel e tesoura”.
Tsoro Yematatu

Fonte: arquivo da professora
É importante mencionar que a produção dos tabuleiros foi a partir de manuseio com papelão, papel sulfite, cartolina, régua, caneta, cola branca, tesoura sem ponta, tecido com estampa temática. Além de Shisima e Tsoro Yematatu, outros tabuleiros foram confeccionados na oficina: Borboleta e Labirinto. Para jogar as partidas, os(as) estudantes utilizaram como peças no tabuleiro castanhas que eles mesmos levaram de casa, sendo tingidas com tinta à base de água na cor azul para diferenciá-las durante o jogo.
Painel expositor confeccionado na oficina

Fonte: arquivo da professora
Os resultados obtidos mostram a relevância da oficina, sobretudo no ensino de “Educação no Campo”. Portanto, visitar a formação histórica e social do Brasil, para muitas pessoas, ainda é nadar em águas desconhecidas, uma vez que, povos negros e povos indígenas lutam, por direitos sociais e políticos; contra discriminação, preconceito e sombras legadas das variadas formas de racismo, desde o período escravista, atualizados todos os dias em nossa sociedade. Além disso, a relevância da atividade levou em consideração que a educação para as relações étnico-raciais deve acontecer durante todo o ano e em todas as modalidades e etapas de ensino, não sendo reduzida a datas comemorativas.
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BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 10 jan. 2003. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.639.htm Acessado: 05 de agosto de 2026.
CUNHA, Débora Alfaia da. Brincadeiras africanas para a educação cultural. Castanhal, PA: Edição do autor, 2016.
FAUSTO, Boris. História do Brasil. 5. ed. São Paulo: Edusp, 2006.
HOOKS, Bell. Escrever além da raça: teoria e prática (J. Oliveira, Trad.). ed. Elefante, 2022.
PINHEIRO, Bárbara Carine Soares. Como ser um educador antirracista. São Paulo: Planeta do Brasil, 2023.
JOELY COELHO SANTIAGO. Doutoranda em Letras: Linguagem e Identidade (PPGLI/Ufac). Mestrado em História e Estudos Culturais (Unir, 2019). Licenciatura em Letras e suas respectivas Literaturas (Unir, 2016). Licenciatura em História (Faveni, 2022). Especialista em Educação das Relações Étnico-Raciais e História e Cultura Africana, Afro-brasileira e IndígenaMembra no Grupo de Estudo e Pesquisas Interdisciplinares Afro e Amazônicos (Gepiaa). Membra no Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas da Universidade Federal do Acre (Neabi/Ufac). Membra no Grupo de Estudos e Pesquisas Culturalidades e Historicidades Africanas e da Diáspora Negra (Chade). Membra na Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic). Professora na Educação Básica (SEE/AC). Membra na Associação Brasileira de Pesquisadores(as) Negros(as) (ABPN). E-mail: [email protected]
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